domingo, 31 de janeiro de 2010

hoje, 31 de janeiro de 2010, 100 anos de tentativa de república

"Cada um tem o seu método, como cada um tem a sua loucura; apenas consideramos sensato aquele cuja loucura coincide com a da maioria."                    Unamuno


Fito-me frente a frente 
E conheço quem sou. 
Estou louco, é evidente, 
Mas que louco é que estou ?

É por ser mais poeta 
Que gente que sou louco ? 
Ou é por ter completa 
A noção de ser pouco ?

Não sei, mas sinto morto 
O ser vivo que tenho. 
Nasci como um aborto, 

Salvo a hora e o tamanho.    

Fernando Pessoa

Poesias Inéditas (1930 - 1935)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

hoje, 27 de janeiro de 2010, 65 anos da libertação de auschwitz






mágica

É uma estrada no céu silenciosa
um anão sem ninguém que o suspeite
é um braço pregado a uma rosa
um mamilo escorrendo leite

São edénicos anjos expulsos
sonhando quietude e distância
são homens marcados nos pulsos
é uma secreta elegância

São velhos demónios ociosos
fitando o céu bailando ao vento
são gritos rápidos, nervosos
que destroem todo o pensamento

É o frio deserto marinho
operando na escuridão
é o corpo que geme sòzinho
é a veia que é coração

São aranhas jovens, pernaltas
arrastando embrulhos para o mar
são altas colunas tão altas
que o chão ameaça estalar

São espadas voantes são vielas
passeios de todos e nenhuns
são grandes rectas paralelas
são grandes silêncios comuns

É uma edição reduzida
das aras da história sagrada
é a técnica mais proibida
da mágica mais procurada

É uma estrada no céu silenciosa
por um domingo extenso e plácido
é um anoitecer côr de rosa
um ar inocente, ácido

(Mário Cesariny, in "manual de prestidigitação"/ Assírio & Alvim)